No post de hoje vamos recuar no tempo e voltar a falar de Cuba, uma das mais fabulosas viagens que fiz até ao momento. Já vos contei a minha experiência em Havana (AQUI) e acreditem que tenho muito mais sítios para vos mostrar, no entanto queria trazer-vos algo diferente, uma experiência daquelas que acontecem uma vez na vida. Foi o caso da minha passagem pelo Valle de los Ingenios, onde não só conheci parte da vida do campo de Cuba, como tive a oportunidade única de andar na frente de uma locomotiva. Sim, literalmente à frente. Ficaram curiosos?
 

 
  O comboio que nos leva pelo Valle de los Ingenios parte da maravilhosa cidade de Trinidad. Realiza apenas uma viagem por dia – isto se a locomotiva estiver a funcionar. Se não estiver, nada acontece e a probabilidade de alguém vir avisar-vos é… quase nula. Portanto, o dia em que decidimos fazer esta viagem começou cedo e com uma espera ansiosa, já que não sabíamos se teríamos sorte. Depois de algum tempo sem perceber o que iria acontecer, e muito depois do horário estipulado, lá vimos a fantástica locomotiva a surgir ao longe. Que me lembre, foi a primeira vez que andei num comboio destes, pelo que estava mesmo muito entusiasmada – e ainda mal sabia eu o que esta experiência me reservava.
 
  O Valle de los Ingenios é composto por um conjunto de vales seguidos junto a Trinidad, onde em tempos se concentrava uma grande produção de cana de açúcar. A indústria da cana de açúcar foi uma das mais importantes de Cuba particularmente nos séculos XVIII e XIX, e os solos ricos desta zona, bem como o fácil acesso a escravos (através da ligação entre a Jamaica e Trinidad), levaram a que fosse um dos mais importantes centros de produção da ilha nessa época. Hoje em dia a produção está praticamente desactivada e a área está classificada como Património Mundial da Unesco.
 
 
  Depois de cerca de uma hora em viagem, chegámos a Manaza Iznaga, uma pequena aldeia praticamente abandonada onde se destaca uma enorme torre, de 7 andares e cerca de 44 metros de altura. Foi em tempos utilizada para o controlo das terras e dos escravos que trabalhavam nas plantações e, tal como estas, está agora desactivada. A experiência mais enriquecedora desta viagem, para além da própria locomotiva (e do que ainda vos vou contar), foi a possibilidade de conhecer a vida dos campos de Cuba, nas zonas mais afastadas das grandes cidades. Por outro lado, compreender uma parte importante da história desta ilha, relacionada com a produção de açúcar e a escravatura, algo que só foi alterado nos anos 50 do século XX pela Revolução Cubana.
 
 
  Mas a grande surpresa deste dia foi o que aconteceu no momento do regresso. Os senhores que conduziam a locomotiva, ao ver a minha curiosidade e de uma amiga minha pelo comboio, convidaram-nos a fazer a viagem de regresso na frente, junto à máquina. Inicialmente estávamos reticentes, mas não demorou muito até ficarmos com a certeza de que não teríamos outra oportunidade daquelas na vida – e aceitámos. E ainda bem, porque foi maravilhoso. Para além de termos tido uma vista completamente panorâmica, pudemos ver de perto como funcionava a locomotiva. Apesar da passagem pelos pequenos túneis e pontes mais frágeis ter-nos feito pensar em que raio nos tínhamos metido, foi uma viagem completamente inesquecível. E foi assim que a típica experiência turística passou a uma experiência de vida. Tudo o que foi necessário foi dizer “sim”.
 
 
  Viajar também é isto. Perder os medos, arriscar, porque se não o fizermos podemos estar a perder oportunidades únicas, experiências inigualáveis, que jamais se repetirão. E é também perceber que o mundo não é tão perigoso quanto nos querem fazer crer.
 
 

 

  E vocês, já tiveram alguma experiência completamente inesperada em viagem? Alguma vez vos aconteceu aceitar algo sem saber bem o que vos esperava, e acabarem a sentir-se agradecidos por terem arriscado?
 

 

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