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  As viagens de autocarro pela América do Sul foram quase sempre uma aventura por si só. Sabendo de algumas histórias desagradáveis, sempre que entrávamos num autocarro havia um nervosismo intermitente, que só nos permitia a alguns minutos de sossego. Ainda assim, fomos. Porque as viagens servem para isto mesmo: enfrentar medos, superar situações desagradáveis, lidar com o imprevisto e acabarmos surpreendidos – connosco e com o mundo.

Este é um dos percursos mais comuns para quem viaja de autocarro entre o Peru e a Bolívia – mas também dos mais interessantes.  Para que saibam tudo o que podem enfrentar, fica o relato.

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De Cusco a Puno

  Partimos de Cusco em direcção a Copacabana às 22h. Até Puno, a primeira paragem, foram umas longas (mas confortáveis) 7 horas num autocarro de assentos-cama, com direito a televisão e a uns snacks. Depois de termos lido várias histórias pouco agradáveis sobre viagens de autocarro pela América do Sul, optámos pela companhia que menos críticas tinha (sim, o “menos mau” é o critério possível por estes lados) – a Transzela. Quando chegámos a Puno já o sol espreitava no horizonte – e, até aqui, tudo corria bem. Em Puno começou a confusão.

  Sabíamos que teríamos de trocar de autocarro aqui, para um que nos levaria a atravessar a fronteira e nos deixaria em Copacabana. Julgávamos, nós e outros viajantes (ingénuos), que seria a mesma companhia a fazê-lo. Mas não: depois de andarmos às voltas na estação de autocarros para percebermos onde poderíamos trocar o bilhete, percebemos que a companhia que nos levaria até Copacabana era aquela que tentámos por tudo evitar: a Titicaca. Perguntem a quem quer que seja que tenha feito uma viagem pelo Peru e pela Bolívia e ninguém vos dirá outra coisa – Titicaca é para esquecer. De terríveis acidentes a burlas e falta de honestidade, esta companhia ganha em tudo. Mas lá estávamos nós. Sem outra alternativa. Com algum medo, embarcámos no autocarro – com muito (mesmo muuito) menos condições que o anterior e seguimos em direcção à fronteira com a Bolívia.

A fronteira da Bolívia

  Não escondo: estava com algum receio desta viagem. Entrar na Bolívia desenhava-se, na minha cabeça, como um cenário assustador, desconfortável e chato. Na realidade, foi só chato – aguardar em filas para termos o selo da saída do Peru, caminhar a pé até à fronteira com a Bolívia (o autocarro entretanto já estava do outro lado), passar debaixo de um arco já quase em ruínas e aguardar, em mais uma fila, para ter o selo de entrada no país. Para nós, portugueses (e julgo que para todos os europeus e brasileiros), viajar pela América do Sul é, para já, bastante fácil: não precisamos de vistos e, no máximo, pedem-nos o certificado da vacinação da febre amarela. Temos, claro, períodos máximos de permanência (que variam de país para país e, se não forem cumpridos, tornam a situação complicada), mas, tirando isso, estamos à vontade. Para os americanos a história é outra – e vi muitos surpreendidos por perceberem que tinham de pagar uma boa quantia, ali mesmo, para entrar no país.

  Uma certa melancolia apoderou-se de mim ao sair do Peru. Lá tinha encontrado pessoas alegres e calorosas, sítios de uma beleza indescritível, uma cultura pela qual me apaixonei no momento em que cheguei e uma das cidades mais belas que já conheci – Cusco. A vontade de regressar ficou.

Uma (quase) burla na chegada a Copacabana

  Chegámos a Copacabana pelas 10h30. Mal entrámos na cidade o autocarro fez uma paragem que não estava prevista. Depois de alguns minutos entram dois sujeitos fardados, alegando ser uma autoridade de Copacabana: exigiam dois bolivianos por pessoa, uma suposta taxa municipal obrigatória para entrar na cidade. Um a um, vi todos os que estavam no autocarro a pagar. Mas eu sabia que não havia taxa nenhuma a pagar e que era comum haver este tipo de burlas na área. Dois bolivianos são menos de 20 cêntimos. Mas eu não permito burlas.

  Junto a nós estava um casal de colombianos e percebi que também estavam desconfortáveis com a situação, pelo que comentei com eles. E garantiram-me: era a terceira vez que entravam em Copacabana daquela forma e nunca tinham pago taxa nenhuma – aquele era apenas um esquema para enganar “gringos”, que compunham a maioria do autocarro. Quando chegou a nossa vez, recusámo-nos a pagar – o que fez com que todos os que estavam atrás de nós e do casal de colombianos fizesse exactamente o mesmo. Depois de umas subtis ameaças por parte dos ditos «oficiais», lá saíram do autocarro e continuámos viagem. A taxa municipal era, como calculam, inexistente.

E (enfim) Copacabana

  Copacabana é uma cidade pequena, aparentemente pobre, com várias construções inacabadas e uma grande avenida principal, onde tudo acontece. Junto à Avenida 6 de Agosto encontra-se tudo o que é necessário: cafés e restaurantes, mercados, multibancos e todas as companhias de autocarro e ofertas turísticas da zona. O nosso objectivo não era ficar por lá mas rumar, no próprio dia, até à Isla del Sol, uma ilha no meio do lago Titicaca que nos despertou curiosidade no momento em que soubemos da sua existência. Então percorremos todas as bancas de venda de bilhetes de barco para comparar preços e, por 15 bolivianos cada (cerca de 2€), comprámos viagens para o lado Norte da ilha, onde pernoitaríamos. Mal sabíamos nós o que nos esperava.

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