titicaca

Atracámos na Isla del Sol a meio da tarde, depois uma longa viagem entre Cusco e Copacabana e duas horas pelo Lago Titicaca num pequeno barco recheado de gente e mercadoria. O barco seguia bem carregado de viajantes, de locais, de mochilas e mercadorias básicas. À minha frente vi de tudo: refrigerantes, papel, alimentos, uma garrafa de gás e outras tantas coisas comuns no nosso dia-a-dia. Connosco, além de alguns viajantes, seguiam homens e mulheres locais, que não pararam de conversar enquanto conduziam o frágil barco.

Mas vamos recuar. Chegados a Copacabana, tínhamos menos de três horas para levantar dinheiro, arranjar bilhetes para a Isla del Sol, comprar águas e arranjar algo para comer. Então, mal saímos do autocarro, começámos a percorrer a avenida principal de Copacabana – Avenida 6 de Agosto. Na parte de cima da avenida encontram-se alguns multibancos e, na parte de baixo, diversas bancas que vendem passagens para a Isla del Sol. Restaurantes e mercados não faltam naquela avenida, pelo que conseguimos ter tudo o que precisávamos no pouco tempo que tínhamos disponível. Ainda descemos até ao porto para sabermos quais os preços dos bilhetes nas bancas que lá se encontram, mas rapidamente concluímos que os valores eram substancialmente maiores. Acabámos então por voltar à avenida e pagar 15 bolivianos (cerca de 2€) pelo barco que nos levaria até ao lado norte da ilha, onde conheceríamos a comunidade de Challapampa.

(+) De Cusco a Copacabana | viagem, fronteira e uma (quase)  burla

titicaca

A chegada à Isla del Sol

Desembarcámos na parte norte da ilha, conhecida por bonitas vistas sobre o lago e ruínas bem conservadas. Não tínhamos onde ficar – e, naquele momento, também já não tínhamos como sair dali. Um simpático senhor em Copacabana tinha-nos garantido que não era necessário, que facilmente arranjaríamos um sítio para passar a noite. E, com essa insegura certeza, partimos para a Isla del Sol.

Logo depois de sair do barco pelas frágeis pontes de madeira que dão acesso a terra firme, e comprado o obrigatório bilhete de entrada na comunidade de Challapampa (uns meros 15 bolivianos), fomos abordados por várias senhoras a oferecerem-nos um sítio onde dormir. Claramente sítios não faltavam (apesar de raros aparecerem nos sites agregadores, o que se deve a algo que explicarei adiante). Ficámos bem perto do porto, numa simpática casa de dois andares. O quarto era simples, apenas com  uma cama e uma casa de banho, mas dava acesso a uma varanda com uma fabulosa vista sobre o lago – tudo isto por menos de 8€.

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

Challapampa – a comunidade

A comunidade era bem mais pobre do que alguma vez havia imaginado. A grande maioria das casas estavam por terminar, os caminhos eram de terra batida, o sinal de rede era pouco e, internet, naturalmente inexistente. Pela comunidade de Challapampa não existem hotéis charmosos ou sequer um hostel – aqui o turismo definitivamente não chegou. Ou, por outra perspectiva, é um turismo de base comunitária, organizado e controlado pela comunidade com os poucos recursos que têm disponíveis nesta ilha separada do mundo por quilómetros de água.

Aqui também não existem carros e o transportador principal é o burro, que auxilia os que carregam às costas as necessidades diárias. A população é essencialmente velha, de poucas palavras – vão vivendo a sua vida ligando pouco aos viajantes que passam. Como a água quente é um luxo de algumas horas do dia, tivemos de aguardar até poder tomar um banho. Pegámos em nós e, apesar de exaustos, fomos caminhar, rumo às ruínas que tanto queríamos conhecer.

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

Chincana – vestígios da antiga civilização

A Isla del Sol faz parte da mitologia inca, já que acreditavam que esta era a casa do deus do sol, Inti. Consta que foi também aqui que nasceu a primeira dinastia inca, sendo por essa razão considerada o berço da civilização que viria a ser um império. Sabendo disto, o objectivo era então caminhar até às ruínas de Chincana, um complexo espectacular na ponta norte da ilha que foi em tempos um importante local sagrado – também conhecido como o Palacio del Inca.

As ruínas do antigo império eram um autêntico labirinto de grandes blocos de pedra que se conservaram de forma extraordinária, onde divisões e corredores se entrelaçavam ao longo de uma encosta suave, tornando fácil  imaginar o esplendor que a ilha teria durante aquele tempo. Ao chegar ao início das ruínas, no seu topo, não nos apercebemos logo da sua dimensão – é preciso entrar pelas suas portas, percorrer os seus caminhos e escadas para nos apercebermos da sua extensão. A grande vantagem de ser um sítio pouco turístico, onde apenas alguns resolvem pernoitar, é que pudemos explorar todo o complexo sozinhos.

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

titicaca

Um final de dia

A dado momento, e de forma repentina, o vento levantou-se e, com o sol quase a esconder-se no horizonte, regressámos. Depois de um banho com pouca pressão mas água bem quente, saímos para jantar. Lá fora a escuridão era total: eram raras as luzes pela rua e andar de lanterna era obrigatório. Depois de algumas voltas perdidas, entrámos num sítio de portas entreabertas, onde estavam apenas mais dois viajantes. A sensação era a de estarmos a entrar na casa de alguém e facilmente se percebia que aquela era a casa de uma família – chamar restaurante seria um exagero.

Ir à ilha do sol sem comer peixe é quase sacrilégio, pelo que pedimos uma truta grelhada (além desta tínhamos apenas mais uma opção, de que já não me recordo). O peixe, vindo do lago Titicaca, era fresco e delicioso e a refeição soube-nos pela vida. Só tenho pena de não ter tirado uma fotografia: mas ainda me lembro bem daquele pequeno sítio onde uma velhinha, de longas tranças e trajes coloridos, se queixava dos “borrachos” – os bêbados que cirandavam na rua à noite em dias de festa (como aquele) – e insistia em fechar a porta e apagar as luzes. Nós riamo-nos – não dela, mas com ela – enquanto o marido nos explicava a razão da sua queixa. Jamais me esquecerei deste jantar, nesta pequena e humilde casa.

titicaca

titicaca

 Na Ilha do Sol o tempo parou.

Aqui tudo é simples e básico, e é com os pequenos luxos que nos devemos contentar – alguma água quente, uma cama para dormir, uma vista fabulosa sobre o lago e algum sítio para fazer uma refeição. Depois de jantar, nada mais havia para fazer. Dentro do quarto, ouvia-se apenas o vento que teimava em passar pela porta, a mesma que tivemos de preencher com sacos e panos, até que nem mais uma fresta deixasse passar o frio. Só na manhã do dia seguinte, com o sol a entrar pela janela, voltámos a acordar: dali a duas horas partiríamos para o lado sul da ilha.

 
 
 
 

 
QUERES VIAJAR MAIS?
  Subscreve AQUI a newsletter do blog para receberes todos os conteúdos exclusivos, dicas e sugestões para viajares mais, gastando menos!
 
 
PLANEIA AQUI A TUA PRÓXIMA VIAGEM !
Se encontraste no Aonde (não) estou a inspiração que precisavas ou dicas que te ajudaram a marcar a próxima viagem, então ajuda-nos também a crescer – é muito simples e não vais gastar um único cêntimo! Utilizando os links de afiliados espalhados pelo site para marcares a tua próxima viagem e vais estar a apoiar o blog sem gastar mais por isso. Para ti, tudo fica igual. Para o Aonde (não) estou, é um importante apoio. Faz a tua reserva pelo BOOKING – site que utilizo há anos e te garante o melhor preço possível -, ou pelo AIRBNB – e ganha 30€ para a tua primeira viagem.