O Caminho de Santiago, uma das mais importantes rotas de peregrinação europeias desde a época medieval, já é tão conhecido que quase dispensa apresentações. Comecei a fazer o caminho francês em 2014 e, até ao momento, ainda não o terminei. Na altura foi-me impossível ficar o mês inteiro de férias, mas queria tanto fazer o Caminho que, apesar do pouco tempo, decidi começá-lo. Foram dias muito intensos que me marcaram profundamente, com várias horas de caminhada, muitos passeios, convívio, algum desespero e bastante silêncio. Mas valeu a pena e sei que um dia voltarei para terminá-lo.

 

Antes de mais, devo esclarecer que não sou religiosa. Não acredito em qualquer ser omnipresente, omnipotente e omnisciente. E tal como eu, provavelmente metade (ou mais?) das pessoas com que me cruzei no Caminho. Mesmo assim, esta viagem teve para mim um grande significado. É essencialmente uma jornada pessoal onde, apesar de nunca se estar sozinho, se caminha sozinho, pelo que pode ter tanto significado para alguém que seja católico como para quem não é. Cada pessoa tem as suas razões para o fazer e são essas que nos conduzem a caminhar cada um dos 817km.

As fotos que tenho foram tiradas com o telemóvel (a máquina era muito pesada para levar), pelo que neste post muitas das imagens não serão minhas. 
Esta primeira é daqui.

  O primeiro dia começa com um grande entusiasmo e vontade de caminhar. Saí de St. Jean-Pied-de-Port ainda o sol não estava completamente à vista, e não demorou muito até me aperceber que o que tinha pela frente não era uma tarefa fácil. Para quem faz o percurso de St. Jean até Roncesvalles no mesmo dia, são 27km a pé. Ok, eu fiz alguma «preparação», que é como quem diz duas ou três caminhadas (sem mochila às costas – uma descomunal falha) por trilhos da minha zona, que nada se comparam com o que me esperava no Norte de Espanha. Porque, meus amigos, o primeiro dia passa-se assim: 21km sempre a subir, 6km sempre a descer, com uma inclinação de cerca de 50º, que acaba com qualquer joelho mais frágil. Tudo isto, com uma mochila [demasiado pesada] às costas.

 
Imagem daqui.
 
 

Mas nem tudo é horrível: o percurso entre St. Jean-Pied-de-Port e Roncesvalles é lindíssimo, já que subimos até aos 1400 metros de altura, o que nos proporciona vistas fantásticas. Se por um lado não queremos que acabe, por outro contamos cada metro até ao nosso destino. Ao chegar a Roncesvalles pensei que era mentira. Depois de quase 8 horas a caminhar (com algumas paragens pelo meio, claro), ter uma cama num dormitório e um duche onde tomar banho, um sítio onde pousar a mochila e espaço para relaxar, é de dar graças a tudo à nossa volta. Tive a sorte de não ter qualquer dor no primeiro dia. Já no segundo, digo-vos: fui às lágrimas. As dores nas pernas e principalmente nos pés eram tantas que quis desistir logo ali. Mas mal me sentei com a ideia de colocar um fim a tudo aquilo, começaram a passar por mim vários peregrinos, uns mais entusiasmados que outros, grupos a falar, caminhantes solitários, cada um com a sua mochila e concha, cada um com a sua razão, todos com o mesmo objectivo. E nesse momento tornou-se impossível desistir, não consegui, senti que não podia – se comecei tinha de terminar.

 

É esta a mística do Caminho. Quem o começa sente que o tem de terminar mais cedo ou mais tarde. Ninguém sabe explicar porquê, porque na verdade ao fim de quatro horas seguidas a pé chega-se a duvidar da própria sanidade mental, do género “porque raio tirei eu férias para me vir meter aqui!?” – todos, sem excepção, pensamos isto. Pensamos em desistir. Mas a maior parte não o faz, não consegue. Não me perguntem porquê.

 

Como disse antes, apesar de estarmos quase constantemente acompanhados, esta é uma viagem muito solitária, muito pessoal. Se um dia o fizerem, garanto-vos que toda a vossa vida vos vai passar pela frente. Vão rever tudo, de bom e de mau. Repensar tudo. E por isso regressam diferentes. Mais preenchidos e livres, diria. Livres porque se vão aperceber do quão pouco é necessário para se estar bem. Porque vão facilmente passar a valorizar o mínimo: uma boa refeição, uma boa conversa, uma cama para dormir. Por outro lado, têm a oportunidade de conhecer várias cidades, vilas e aldeias por onde vão passar, descansar ou mesmo dormir. E nada vos obriga a fazer tudo de seguida, visto que podem perfeitamente passar mais do que uma noite num determinado sítio.

Imagem daqui.

Vou ser sincera, caminhar horas a fio com uma mochila às costas não é fácil. Isto não é um percurso para fazer turismo. Acreditem que se querem conhecer o Norte de Espanha, há formas mais fáceis de o fazer. Primeiro as dores nos pés vão ser insuportáveis, com uma forte probabilidade de ganharem bolhas (eu safei-me disso, mas sei que o mais comum é acontecer). Depois habituam-se às dores nos pés e levar aquele peso às costas passa a ser algo inimaginável. Isto tudo na primeira semana e meia, duas semanas. A partir daí, é só com vocês próprios que vão ter de lidar, porque habituam-se a tudo. Portanto, se querem embarcar numa jornada pessoal e testar os vossos limites, esta é a vossa viagem. Se apenas querem conhecer o Norte de Espanha, procurem outras soluções mais simples.

Imagem daqui.

Quem está a ler atentamente esta crónica já deve ter desistido de qualquer ideia relativa ao Caminho, dado o tom com que a tenho desenvolvido. Mas acreditem que os momentos bons são aqueles que eu não consigo descrever, que não consigo explicar por palavras. Tudo vai ter significado para vocês: as pessoas que vão encontrar e reencontrar, o convívio, os selos a crescer no vosso passaporte, ou as histórias de peregrinos que já completaram o caminho. De cada vez que chegarem ao fim do percurso de determinado dia, vão ter um sentimento de missão cumprida, de que são capazes, algo que é impossível de descrever.

 
  Aos que estão a pensar fazê-lo (seja o francês, o português ou outro qualquer), fiquem por perto porque vou dedicar alguns posts ao Caminho, com tudo o que devem levar na mochila, algumas dicas práticas e informações relevantes. Se tiverem alguma questão, não hesitem em deixá-la nos comentários. De resto, só vos posso desejar uma coisa:

Buen camino!

 

Não se esqueçam de acompanhar o Facebook do blog!