Na primeira parte deste post, que podem ler aqui, escrevi sobre algumas questões que por norma antecedem a viagem . Falámos na preparação do Caminho, em tudo o que precisam de levar e de algumas dúvidas existenciais que por vezes surgem antes da caminhada. Hoje falamos mais das questões que surgem durante o Caminho, muitas das quais nem nos ocorrem antes de começar a viagem. O meu propósito é que entendam que não vai haver qualquer problema, que há soluções para tudo e que só têm de deixar as preocupações de lado e embarcar na aventura. Vamos a isso?

QUÃO DIFÍCIL É?
No início caminhar com a mochila vai ser complicado, mas se cumprires as regras que mencionei na parte 1 não terás muitos problemas. Depois, claro, vais sentir dores nos pés e algumas no corpo – mas nada de grave. A caminhada é intensa e vais pensar em desistir (como escrevi aqui, eu própria pensei nisso), mas tens de saber que todos passam por isso – até os que parecem mais entusiasmados. Levantar cedo – estamos a falar de levantar pelas 7h ou antes – também se pode revelar complicado, mas é algo a que te vais habituar. A dado momento as manhãs são maquinais: levantas-te, vestes-te, arrumas tudo, comes e vais caminhar. Diria que no final da segunda semana já te habituaste a tudo, portanto sê persistente.

COMO CONSIGO A COMPOSTELA?
A Compostela [vejam aqui], para quem não sabe, é o certificado emitido no fim da caminhada pela Igreja de Santiago de Compostela a todos os peregrinos que apresentarem a Credencial do Peregrino devidamente carimbada, demonstrando que fizeram os últimos 100km a pé ou os últimos 200km de bicicleta. Outra das coisas que pedem para a obtenção do certificado é uma justificação – denominada pietis causa -, seja ela religiosa, espiritual ou de outra índole. No fundo, que pensem porque foram fazer o Caminho de Santiago, o que vos levou a percorrê-lo, o que vos motivou.

DURANTE A CAMINHADA POSSO PARAR ONDE QUISER?

Claro. Há paragens habituais, ou seja, uma série de localidades e cidades onde por norma todos os peregrinos pernoitam, mas não és obrigada/o a nada. És tu quem constrói o teu Caminho. Por exemplo, há quem faça o primeiro dia todo de seguida desde Saint-Jean-Pied-de-Port até Roncesvalles – como eu fiz – e há quem o faça em dois dias, ficando uma noite num albergue que existe a menos de metade do percurso (cujo nome não me recordo). A ideia essencial é apenas esta: tu é que decides quando caminhas, quando paras e onde queres ficar.

 

E SE NÃO ME APETECER ANDAR COM A MOCHILA?
Talvez não pensasses que era uma possibilidade até leres isto – eu própria só soube depois de uns dias no Caminho -, mas é verdade: há várias empresas que se disponibilizam para transportar a mochila de um local para outro. Só tens de pagar e dizer para qual albergue vais/tens reserva. Diria que encontras os contactos e formulário destas empresas em quase todos os albergues, mas só a dada altura reparei no assunto (eu bem que estranhava haver pessoas a caminhar com uma mochila de 5l, mas pensei que eram locais ou mega práticos, haha). A mais conhecida creio que é a Jacotrans, no entanto não utilizei nenhuma porque a meu ver destoa o propósito da experiência – porque, não sendo católica, compreendo que a ideia é superar as dificuldades e não contorná-las – e sai caro.

 

CUIDADOS A TER AO CAMINHAR
  • Há alguns cuidados que deves ter ao caminhar e que não posso deixar de referir aqui, nomeadamente:
    Descalçares-te sempre que fizeres uma paragem mais longa, para deixares os pés respirarem e evitar bolhas (acredita, nem vais questionar este ponto na altura, vai ser a primeira coisa que te vai apetecer fazer).
  • Se ao caminhar sentires algo a incomodar-te o pé, seja o que for, mesmo que aches que “não é nada de especial”, simplesmente interrompe a caminhada, descalça-te e livra-te do problema. Caso contrário essa pequena coisa torna-se numa gigante bolha.
  • Se, apesar de todos os cuidados, ficares com bolhas e estas te doerem ao ponto de ser difícil caminhar, pede ajuda a alguém nos albergues municipais que rapidamente surgem várias pessoas prontas a ajudar-te e vão tratar dos teus pés como se fosses um(a) lord/lady.
  • Come bem. Não é muito, mas bem: este não é o momento para pensares em dieta. Estás a fazer um grande esforço físico e precisas de hidratos e calorias. Portanto, nada de inventares.
  • Enche o cantil sempre que tiveres oportunidade. Não assumas que vão haver mais fontes pelo caminho. Apesar de estar bem equipado, há momentos em que ficamos sem acesso a água durante muito tempo e se não tiveres o cantil cheio é um problema sério.

 

COMO LAVAR A ROUPA?
Na maioria das vezes terá de ser nos lavatórios. O melhor é todos os dias, depois de chegares e descansares, ires lavar alguma da tua roupa para teres em reserva. Agora pode parecer estranho, mas verás que todos fazem o mesmo. Ao final da tarde montam-se autênticos estendais nos albergues – é um máximo. Como alternativa, podes pagar para te lavarem a roupa (nunca o fiz e não sei quanto será) e em alguns albergues vão haver máquinas onde a poderás lavar de graça ou por 1/2€ (por exemplo, em Pamplona) – aproveita sempre, mesmo que não tenhas detergente: usa champô (yup, eu fiz isto)! Vai ficar super cheirosa e bem mais limpa do que se a lavares à mão.
 
 
PRECISO DE SABER FALAR «ESPANHOL»? 
Não, de todo. Como as nacionalidades são tantas, todos sabem falar ou arranhar o inglês. E até é provável que encontres portugueses para te receber (a pessoa que me deu o passaporte e todas as informações necessárias em Saint-Jean foi um peregrino português, algo que me reconfortou imenso!). Mas não te fica nada mal aprenderes algum vocabulário, afinal aprender línguas também faz parte desta aventura que é viajar!

 

E A GRANDE QUESTÃO: VOU PERDER-ME?

A resposta é simples: só se estiveres muito distraída/o. O Caminho tem imeeeensas indicações, normalmente uma seta ou uma concha. Estes símbolos podem estar em marcos, em paredes, em painéis ou mesmo no chão (sim, quando não vires nada, procura conchas ou setas no chão – por norma amarelas). Para não te acontecer algo dramático – tipo isto -, se estiver mau tempo não caminhes. Fica no albergue mais um dia ou até o tempo melhorar.

P.S.: NÃO TE ESQUEÇAS DE CONVIVER

Vais cruzar-te com centenas de pessoas de todo o mundo, portanto não percas a oportunidade para conhecer pessoas novas (e quiçá arranjar casa para ficar na próxima viagem, eheh). A sério, deixa a timidez de parte e mete conversa. Vai até à zona comum dos albergues, senta-te algures e começa a conversar e a partilhar experiências. É uma das partes mais fantásticas do Caminho, partilhar momentos e conversas, perceber que muitas das ideias que nos passam pela cabeça (como desistir ou sentir-mo-nos loucos) são comuns a todos, ver como aos poucos as pessoas vão ficando mais à vontade para partilhar contigo o que os motivou a fazer o Caminho. É algo extraordinário, difícil de transmitir por palavras. São as pessoas que proporcionam o ambiente do Caminho de Santiago e é disso que mais sinto falta. Mal o abandonei, a saudade bateu e houve um vazio que me dominou completamente o espírito. Aproveita todos os momentos. (Con)Vive.

 

LEITURAS RELACIONADAS
Se te quiseres inspirar, sugiro alguns dos livros mais conhecidos relacionados com o Caminho de Santiago. Mas lembra-te: para a viagem só podes levar livros de bolso. Nem penses em levar um grande: repito, vais-te arrepender!O Diário de um Mago – Paulo Coelho

Caminhos de Santiago – Paulo Almeida Fernandes
Por Caminhos de Santiago – Carlos Gil e João Rodrigues
Os Templários, o Caminho de Santiago e outros mistérios – Delia Steinberg Guzmán
(e um completamente diferente mas que transmite o espírito da peregrinação e da viagem pessoal/interior: o Siddhartha – que honestamente foi o único que li dos que acabei de indicar).

 

Tal como disse na primeira parte, sintam-se à vontade para colocar todas as questões a qualquer altura (mesmo que só leiam este post muito tempo depois de ele ter sido publicado). Vou adorar contribuir para a vossa aventura!

Visitem a página do Facebook do blog, seria tão bom ver-vos por lá 🙂

 
 

 

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