Acordei naturalmente, sem necessidade de despertador, como num qualquer dia normal. Mas aquele não era um dia normal – pelo menos não para mim. Estava no campo de refugiados do Dheisheh, na casa do Ibrahem e da Aya, na cidade de Bethlehem, Palestina. Levantei-me e fui directa à janela do quarto, de onde se avistava uma imensidão de prédios de aspecto inacabado com dezenas de depósitos de água amontoados no topo de cada um deles.

hebron-palestina

Campo de refugiados do Dheisheh

Tínhamos chegado a Bethlehem no dia anterior, vindos de Jerusalém. Para chegar a Bethlehem apanhámos o autocarro n.º231, de cor branca com listas azuis (os de listas verdes vão para Norte, pelo que não é nestes que devem procurar), na estação de autocarros à frente da Damascus Gate. A viagem custou cerca de 7ILS, pagos directamente ao motorista.

Naquele dia íamos conhecer Hebron, a maior cidade da West Bank e uma das mais conturbadas dos territórios palestinianos ocupados. Este é talvez o momento para fazer uma advertência: o texto que se segue, como já terão percebido, não será imparcial. E não o será porque esta já não pode ser uma questão imparcial: o que se está a passar nos territórios da Cisjordânia é um regime de apartheid implementado pelo Estado de Israel – e isto, independentemente do trágico passado recente do povo que o impõe, é indefensável. Continuemos.

Fomos para Hebron no carro do Ibrahem. Durante o percurso para Hebron explica-nos a diferença entre as casas palestinianas e os colonatos israelitas. As primeiras podem identificar-se facilmente pela presença de depósitos de água no topo dos prédios, para fazer face aos longos períodos sem fornecimento de água canalizada. Os colonatos são concentrações de prédios recentes de telhado normal, que vão pontuando a paisagem dos territórios palestinianos. Explica-nos que todas aquelas terras livres que vemos, que estão dentro do território que deveria pertencer à Palestina de acordo com o plano de divisão da ONU de 1947 (Resolução 181) – e mesmo segundo os Acordos de Oslo, que já reduziam os territórios cuja soberania era atribuída à Autoridade Palestiniana -, não podem ser ocupadas por palestinianos porque as forças israelitas destroem qualquer nova construção. E explica-nos ainda que, em determinados pontos desta via, os palestinianos não podem circular a pé ou sequer sair dos carros em caso de problemas, pois arriscam-se a ser baleados pelos soldados israelitas que se encontram nas várias torres de controlo espalhadas ao longo da estrada.

hebron-palestina

hebron-palestina

Colonatos israelitas

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

Postos de controlo israelita ao longo da estrada que liga Bethlehem a Hebron

Chegámos ao centro de Hebron. É possível visitar a cidade sem guia, mas a presença de alguém facilitará a compreensão de tudo. Depois de Gaza, Hebron é a cidade mais conturbada e onde o conflito se torna mais evidente. Apesar de, segundo a ONU, Hebron pertencer à Palestina (algo reforçado pela UNESCO em 2017, quando reconheceram “Old City” de Hebron como “património mundial da Palestina”), actualmente a cidade está dividida em duas áreas: uma sobre controlo da Autoridade Palestiniana (H1) e outra sobre o controlo militar israelita (H2). O centro histórico (Old City) está maioritariamente incluído nesta última área, o que agrava as restrições e complexidade da área.

Aqui, em Hebron, vivem cerca de 35000 palestinianos e pouco mais de 500 colonos israelitas – os chamados “settlers”, judeus que são pagos pelo Estado de Israel para viverem nestes colonatos em territórios palestinianos – colonatos que foram considerados ilegais pela resolução 446 do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 1979 e que tem vindo a reafirmar ao longo dos anos.

Antes de seguirmos para a Old City fizemos uma curta passagem pela área H1, de controlo palestiniano. Aqui, ainda que se notassem os primeiros sinais do conflito, a vivacidade das ruas, a quantidade de pessoas e o trânsito não me faziam adivinhar o que estava prestes a ver. Parámos para almoçar em plena rua – e que melhor poderíamos arranjar que um falafel acabado de fazer? Ainda com o falafel na mão começámos a caminhar em direcção ao centro histórico de Hebron.

hebron-palestina

hebron-palestina

É impossível encontrar palavras que transmitam o que senti ao ver o velho mercado de Hebron completamente vazio, com apenas alguns [resistentes] vendedores de porta aberta. Em tempos foi um mercado vibrante cheio de lojas, entretanto obrigadas a fechar pelas autoridades israelitas.

Olho para o céu e vejo redes. Para lá delas, os prédios dos colonatos israelitas. Em cima delas, lixo atirado pelos ocupantes. Ibrahem explica-nos que a rede foi ali colocada precisamente para proteger os palestinianos que circulam pela rua daquilo que é arremessado dos prédios. É que estamos numa rua de circulação palestiniana: a tal complexa rede de interdições que se agravam no centro histórico de Hebron, onde há ruas interditas a palestinianos e outras desaconselhadas a israelitas.

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

Primeiro checkpoint. Os checkpoints foram criados por Israel para controlo da circulação nos territórios palestinianos ocupados e entre estes e os territórios israelitas. Os de Hebron são compostos por uma cabine, onde estão os militares, e uma infra-estrutura que condiciona a passagem através de uma barreira. Nestes checkpoints terão sempre de mostrar a vossa identificação e aguardar o aval das autoridades israelitas para prosseguirem. Para nós, turistas, a passagem nestes locais é maioritariamente pacífica, ainda que o facto de estarmos acompanhados pelo Ibrahem nos tenha valido alguns olhares desconfiados. Para os palestinianos, nem sempre é assim. Por duas vezes, durante a nossa curta passagem por Hebron, vimos grupos de mulheres palestinianas bloqueadas nestes checkpoints por militares israelitas.

hebron-palestina

Checkpoint

Chegámos ao Túmulo dos Patriarcas/Mesquita de Abraão. A aproximação a este sítio aumentou o meu nervosismo. Sendo um local sagrado tanto para judeus como para muçulmanos, é palco de vários confrontos e manifestações e isso deixava-me particularmente insegura.

Entrámos na mesquita e fomos imediatamente recebidos com um sorriso por um grupo de jovens raparigas que nos perguntaram se estávamos a gostar da Palestina e se disponibilizaram para qualquer esclarecimento. Agradecemos e seguimos. Lá dentro, o Ibrahem explica-nos a importância do local para os muçulmanos (ressalvando que é pouco religioso) e leva-nos ao local onde aconteceu o massacre de 1994, no qual um colono judeu matou dezenas de palestinianos. É que, essa é outra questão: além dos milhares de militares armados com metralhadoras espalhados pela área de controlo israelita, os colonos podem ter armas pessoais.

hebron-palestina

Saímos e fomos em direcção à entrada da sinagoga. Aqui o Ibrahem não podia entrar, então seguimos sozinhos. Confesso: não entrei no Túmulo dos Patriarcas. O desconforto e insegurança que senti levaram-me a voltar para trás antes de chegar à entrada da sinagoga. A quantidade de militares era intimidante e, ainda que aparentemente estivessem relaxados (os militares são maioritariamente jovens israelitas que são obrigados a cumprir o serviço militar e «empurrados» para esta situação), voltámos para junto do Ibrahem rapidamente.

hebron-palestina

Seguimos mais um pouco para Este do Túmulo dos Patriarcas/Mesquita de Abraão e enquanto caminhávamos aconteceu um dos momentos de maior tensão nesta curta passagem por Hebron: começámos a ouvir, ao longe (mas suficientemente perto), bombas e tiros. O Ibrahem explica-nos que são bombas de gás lacrimogéneo que por vezes são utilizadas por soldados israelitas quando, por exemplo, algum palestiniano vai ao topo dos prédios que habitam, onde estão os depósitos de água – algo que, no centro de Hebron, estão proibidos de fazer.  Não vos sei transmitir o estado de ansiedade em que fiquei quando, além do mais, dei por nós numa rua em que não se avistava quase ninguém.

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

hebron-palestina

Old City, Hebron

Saímos desta zona central e passámos novamente o checkpoint para a área de controlo palestiniano (onde, admito, me sentia muito mais à vontade, quer pela simpatia das pessoas, quer pela inexistência de militares armados a circular), mas não sem antes sermos abordados por soldados israelitas que nos perguntaram a religião – a mim e ao meu companheiro. Respondemos que éramos turistas e que não tínhamos religião e deixaram-nos seguir.

Chegámos a mais um dos checkpoints de Hebron: desta vez o que condiciona a passagem para a King David Street ou Al-Shuhada, para judeus e muçulmanos, respectivamente. Esta é a via principal de ligação ao Túmulo/Mesquita, razão pela qual costumava ser a principal rua da cidade de Hebron. Na sequência do massacre de 1994 as forças israelitas interditaram a circulação de palestinianos na área, fecharam as centenas de lojas da rua e retiraram todos os serviços e escritórios oficiais palestinianos. Posteriormente, foi autorizada a entrada de palestinianos moradores que necessitassem de aceder às suas casas através da rua, ainda que não tenham permissão para receber visitantes. Por esta razão, mais uma vez, o Ibrahem ficou de fora mas incentivou-nos a passar o checkpoint e a caminharmos um pouco pela rua. Estava vazia e nada se passava: parecia que caminhávamos por uma cidade fantasma.

hebron-palestina

hebron-palestina

Muros no meio de Hebron, colocados pelo Estado de Israel para delimitar as áreas de controlo israelita.

hebron-palestina

Checkpoint

hebron-palestina

hebron-palestina

King David Street/Al-Shuhada

Ainda antes de regressar ao carro, parámos numa pequena loja onde o dono gentilmente nos ofereceu um chá e nos sentámos com outros turistas que lá se encontravam enquanto um outro guia (palestiniano) local nos revelou mais alguns detalhes sobre a vida em Hebron.

Regressámos ao carro. O misto de tristeza e revolta que tinha dentro de mim é, mais uma vez, impossível de expressar no que vos escrevo. Sentámo-nos no carro em silêncio.

Já fora do centro da cidade, parámos num cruzamento com sinal vermelho e começámos a ouvir tiros. Olhámos para o lado e, na via contrária (em direcção a Hebron) estava um carro parado na berma com dois palestinianos nervosos de volta dele, a tentar resolver um aparente problema do carro. O Ibrahem exclama “Ai ai ai, eles não deviam ter saído do carro”. É que mais atrás, a poucas dezenas de metros, está uma torre de controlo israelita – do alto da qual vêm os tiros. “Estão a habilitar-se a levar com um tiro, os militares estão a avisar”, disse o Ibrahem, enquanto os militares israelitas disparavam de seguida para o ar, como que ameaçando, para que os dois palestinianos voltassem a entrar no carro.

Tive medo. Desviei o olhar. Nunca tinha visto ninguém morrer e certamente não estava preparada para isso.

O sinal ficou verde. E seguimos em direcção a Bethlehem.

Este texto é dedicado à Alma, aos seus pequenos e curiosos irmãos, ao Ibrahem e à Aya, que eu espero voltar a ver

numa Palestina Livre.

hebron-palestina