Em minha defesa, digo desde já que era impossível arranjar um título mais curto para este texto. O poder de síntese por vezes não me assiste – mas adiante.

  A minha relação com viagens é de longa data, já que comecei a viajar com o meu pai desde muito cedo. Ainda em criança, percorri com ele o país de uma ponta à outra, de carro e tenda atrás. Fomos a vários sítios na vizinha Espanha – desde grandes cidades, parques temáticos, museus, pequenas vilas, …-, viagens maravilhosas que me permitiram conhecer um pouco de tudo. Mal sabia ele que me estava a passar um bicho dos complicados.

 

 Em 2000 fiz a minha primeira viagem de avião, umas longas nove horas (terão sido mais? já não me recordo bem) até São Tomé e Príncipe. Tivemos a oportunidade de fazer esta viagem sem pagar aviões e alojamento, pelo que com 8 anos entrei pela primeira vez num avião. Não me lembro de muito a não ser do facto de estar extremamente nervosa e não conseguir dormir um segundo que fosse. Ah, e de pensar que ia morrer ao sair do avião – o ar era muito húmido, pesado, pelo que e difícil adaptar a respiração (principalmente se já estivermos em pânico, que era o caso). Passámos duas semanas na ilha e, apesar das poucas fotografias, vindas directamente de máquinas de rolo descartáveis, foi uma experiência que jamais esquecerei.

 

 Foi apenas 6 anos depois, em 2006, que comecei a viajar de avião (isto é, para mais longe) com alguma regularidade. Primeiro ainda com o meu pai, mais tarde já sozinha ou com o meu eterno companheiro de aventuras. Ainda que nem sempre lá para fora (em 2010 optámos por fazer um Intra Rail, sobre o qual já escrevi aqui), desde 2006 que não houve um único ano em que não viajasse, em que não conhecesse sítios novos. Até que chegou 2015.
 

Em 2015 não viajei. E quando vos digo que não viajei, é literalmente isso. Bem, excepto um fim-de-semana que passei em Monsaraz, que não conhecia antes disso. De resto, nada. Nicles. Niente. Foi o ano em que escrevi a minha tese de mestrado e no qual não fiz rigorosamente nada. A minha vida social quase desapareceu e, de cada vez que pensava em sair por uns dias, as toneladas de trabalho que tinha pela frente acenavam com um sorriso enquanto me diziam “nem penses”. Tenho o péssimo hábito de me dedicar demasiado às coisas a que me proponho fazer, muitas vezes de forma exagerada, e fico tão concentrada em fazer (e fazer o melhor possível), que enquanto não completo as tarefas não vejo mais nada à frente.

Obviamente cheguei ao fim de 2015 em completo desespero – prestes a bater com a cabeça na parede, ou a embarcar no primeiro avião que pudesse pagar. Tive de ficar dois meses e meio à espera da minha defesa (sem saber bem em que momento poderia ser) e basicamente a enlouquecer em casa. E pensarão alguns de vocês “Oh Ana, que exagero”. Não é. Para mim viajar não é apenas uma regalia, mas uma necessidade. Faz parte daquilo que sou, daquilo que quero ser e saber (ou não fosse a minha profissão o estudo dessa coisa maravilhosa que é o passado humano). É o momento em que tenho a oportunidade de conhecer em primeira mão aquilo que leio nos livros, de ter a minha perspectiva do mundo. Conhecer outras culturas e formas de estar é algo que me preenche, que me abre horizontes, que faz com que me apaixone repetidas vezes pelo meu mundo. E mesmo que a diferença cultural não seja grande, sei que volto sempre diferente, porque trago um pouco dos sítios que conheço comigo – e deixo um pouco de mim lá. Não ter viajado em 2015 foi perder um pouco de mim – e sei que não posso permitir que isso volte a acontecer.

Portanto, após esta experiência de ano sem viajar – e considerando que sofri o bastante para poder falar sobre o assunto -, indico-vos alguns dos sintomas sobre essa doença que é o vício por viagens.

 

SINTOMAS MAIS COMUNS:

  1. Consultas blogues de viagem constantemente e segues todas as contas de instagram de todas as pessoas que publicam fotos de viagens e sítios maravilhosos
  2. Sentes que se não viajares não aprendes quase nada com a vida
  3. Procuras preços de viagens de avião para 4 destinos diferentes, 1 vez por dia, 7 dias por semana
  4. Passas horas a fazer percursos possíveis e tens no mínimo 3 viagens diferentes planeadas
  5. Evitas gastar dinheiro porque começas a pensar na quantidade de viagens que podes fazer se poupares (do género: isto é 20€? Já paga uma viagem de avião!)
  6. Vês todos os filmes sobre o tema que alguma vez foram feitos
  7. Revês todas as fotografias e todos os recuerdos de viagens anteriores… enquanto choras baba e ranho
  8. Começas o teu blog de viagens jurando a ti própria/o que nunca mais vais permitir que isto se repita (este verifica-se só em alguns casos, mas percebem onde quero chegar)
 
Mais alguém com o mesmo problema?